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Qual a dose certa?

por Letícia Sallorenzo às 22:54 em 27/10/2009

Quando seu filho nasce, você meio que entra numa espécie de ovo com ele. É um universo lindo - às vezes barulhento, insone - mas é um universo perfeito, composto de mãe e filho. O mundo externo não invade essa perfeição. Mas há algumas semanas, a casquinha desse ovo de perfeição foi quebrada por um golpe duro do mundo aqui fora. E me fez pensar mais uma vez. Desta vez, com dor.

Um louco invadiu o hotel de propriedade da família de uma amiga para falar com uma das funcionárias, de quem era ex-marido. Ele não aceitava o fim do relacionamento e foi tomar satisfações com a ex-mulher. O irmão da minha amiga (que estava na recepção do hotel) tentou intervir e teve problemas.

Não vou entrar em detalhes aqui (até porque isso não é o tipo de coisa que se conte a uma mulher grávida). Além do quê, saber do desfecho da situação não vai mudar em nada a vida de ninguém que está lendo este post. Mas o que aconteceu com o irmão da minha amiga me fez pensar muito.

Na verdade, comecei meus devaneios a partir de um comentário do meu marido. O Fernando foi quem me chamou atenção para um detalhe: “Tem homem que não aceita um não de uma mulher. Nunca deve ter ouvido não na vida, e ao receber essa resposta fica tão desnorteado que comete loucuras”. De fato, essa espécie de louco vem se proliferando em nossa sociedade.

E eu, agora mãe, me pergunto: que tipo de educação esses homens receberam de suas mães quando meninos? Teriam sido educados como verdadeiros reizinhos dentro de casa, a quem tudo era permitido? Alguma vez suas mães lhes disseram não, não pode!, com firmeza? Eles aprenderam o valor e o significado do não e, por tabela, aprenderam a lidar com uma negativa e cuidar das frustrações geradas por essa negativa?

Que tipo de mãe esses homens tiveram? Uma mulher terna e meiga que os educava e lhes passava o sentido e os valores das coisas, das gentes, do mundo? Uma mulher que sabia ser firme quando necessário, sabia dizer não na hora certa e inclusive ensinava ao filho como lidar com a frustração de uma negativa? Ou seriam elas escravas das vontades e dos poderes do reizinho que as comandava?

Daí, minhas neuras aliaram-se ao poderoso instinto materno (aquele a quem eu estou devendo uns “Pedala!” no meio das têmporas pra ele me deixar em paz) e jogaram todas essas perguntas pra cima de mim: serei eu uma mãe escrava ou uma mãe educadora?
 
Qual a dose certa de carinho, mimos e vontades que você pode dar ao filho para que ele cresça um ser humano psicologicamente são? (É, minhas neuras ficaram ainda mais poderosas).

Sei que não posso permitir que o meu filho se torne o reizinho dentro de casa. Mas será que conseguirei isso? E se eu falhar na minha missão, como é que fica?

Mas aí eu respirei fundo e resolvi voltar a me preocupar de fato com isso quando o Thiago acabar de tomar todas as doses de vacinas que ele precisa. Até lá, vou levando minhas neuras e meu instinto materno em banho-maria. Ou isso, ou eu enlouqueço.

Neurônio de mãe sofre, viu?
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