Deixa chorar. Porque?
por Renata Penna às 14:27 em 09/11/2009
Uma das grandes questões que ronda mães de primeira, segunda ou terceira viagens, é como lidar com o choro do bebê. Especialmente à noite, quando eles acordam chorando, querendo colo, e só acalmam se ficam juntinhos da gente, porque o berço parece ter espinhos: é colocar o pequenino ali pro berreiro recomeçar.
Se você procurar na livraria mais próxima, descobrirá que há livros e mais livros recheados de teorias e técnicas para ‘adestrar’ os bebês, fazendo-os aprender a dormir sozinhos, no berço, a noite toda. Eu, particularmente, não acredito em adestramento de bebês. Acredito em respeitar o tempo deles para adaptar-se e aprender sobre os ritmos da vida cotidiana.
Foi por isso que, com minhas filhas, nunca as deixei chorando sozinhas no berço, nunca me neguei a atendê-las quando acordavam de noite, nunca forcei a barra para que dormissem sozinhas, de porta fechada, no escuro, sem colo, ou sem a presença e o carinho que elas demonstravam precisar.
Deixar um bebê chorando sozinho no berço, simplesmente para ensinar-lhe que agora é a hora de dormir ou que não poderá ser atendido sempre que precisar é, pra mim, uma violência. Bebês não sabem falar e sua única forma de expressão é o choro. Imagine você, expressando um desagrado a plenos pulmões e sendo solenemente ignorada por todos à sua volta... desagradável, não?
Sim, eu sei bem que muitos dirão: “mas se ele não está com fome, não está com frio, não está molhado, então não há razão para choro!!”. Bem, esse raciocínio seria perfeito se seres humanos não fossem seres subjetivos, dotados não apenas de necessidades concretas e imediatas, mas de sentimento.
Mesmo nós, adultos, que sabemos nos comunicar de inúmeras maneiras, quantas e quantas vezes choramos por motivos que não têm nada de concreto e objetivo? Choramos porque sentimos saudades de alguém ou de alguma coisa, choramos porque nos sentimos sozinhos ou assustados, choramos porque estamos com raiva, porque estamos frustrados, cansados ou mesmo porque sentimos uma angústia incômoda que nem sequer sabemos de onde vem. Bebês são como nós, só que menores. Muitas vezes, o choro do seu bebê não terá um motivo pontual, objetivo, mas isso não significa que não seja legítimo, nem que deva ser ignorado.
Pra mim, respeito e empatia são palavras-chave para exercer a maternidade. Eu, com minhas filhas, busco sempre respeitar o que elas sentem, o tempo que precisam para caminhar e amadurecer. Não atropelo as coisas, porque acredito que isso só gera dor e insegurança.
Dormir nos horários 'normais' é, como tudo na vida dos bebês, um aprendizado. E eles não aprenderão todos
do mesmo jeito. Alguns bebês - como é o caso da nossa caçulinha, Chiara - terão um sono tranqüilo desde cedo. Outros - como é o caso das nossas mais velhas, Ana Luz e Estrela - precisarão de mais tempo para adaptar-se ao ritmo da vida cotidiana. E tudo bem. Cada um, cada um.
Seja com Chiara ou com as irmãs, eu respeito, acolho e procuro ajudar a superar as dificuldades. Não forço, não imponho meu tempo a elas. O aprendizado é delas, e será vivido no tempo delas, não no meu.
Não nego que deixar um bebê chorando para aprender a consolar-se, ou a dormir sozinho, acabe funcionando. Eventualmente, o bebê deixará de chorar. Mas não porque ele aprendeu a não precisar do colo, ou do aconchego, mas porque se resignou. Entendeu que pode chorar o quanto quiser, que isso não lhe trará conforto algum, e no final das contas, terá mesmo que se virar sozinho. Definitivamente, não é isso que quero ensinar às minhas filhas.
Muito pelo contrário. Quero ensinar a elas que uma das melhores coisas da vida é ter com quem contar. É ter um ombro amigo e um colo nas horas difíceis. E principalmente, quero que elas saibam que não estão sozinhas. Que a caminhada da vida é assustadora às vezes, mas sobretudo fantástica e deliciosa, e que seja como for, estaremos sempre, sempre juntas.