A mais bella das mamies
por Letícia Sallorenzo às 14:10 em 19/11/2009
“Não diga uma coisa dessas, menina! A mais Bella das Mamies é Nossa Senhora!”
Essa exclamação, num suave porém delicioso sotaque nordestino, influenciado por quase uma década de vida na Paraíba, foi a reação da Andréa Carrer quando eu contei pra ela que estava pensando em fazer um texto para o Mamie Bella contando a história dela, e que levaria esse título.
Conheci a Andréa há uns quatro anos. Ela é amiga de infância do Fernando, e mora em Lucena (PB). Quando o Fernando me disse 'você tem que conhecer uma amiga linda que eu tenho”, confesso que senti uma pontinha de ciúmes do meu marido. E, depois de conhecer a tal da amiga linda, a pontinha de ciúme se foi, e me senti pequenina diante de alma tão iluminada.
A Andréa é MÃE e é BELA, sim. Ela nunca pariu ou carregou um filho no ventre. Mas ela é MÃE. Com todas as maiúsculas, negritos e destaques possíveis que tal palavra merece. Ela é mãe de seus pais, do tio, da irmã, dos sobrinhos, da mãe do marido, do marido, de mais de 300 crianças assistidas pela Apôitchá, ONG que ela coordena, das mães dessas crianças e, se a gente acrescentar aqui o trabalho itinerante que ela faz, aí a conta sobe pra mais de mil filhos.
O coração de Andréa é a definição maior de mãe. Ela é a mulher que quer dar àqueles que ama a capacidade de caminhar sozinhos. Enquanto essa capacidade não chega, ela está lá, do lado de cada um, pronta para proteger e estender a mão. Ela quer ver as gentes crescerem e evoluírem espiritual, física e materialmente. E contar esses casos de sucesso com algum orgulho e muita, mas muita felicidade no coração.
Mas quem é essa Andréa, e o que ela faz da vida? Pra gente entender essa Mãe Bela e o trabalho que ela desenvolve, vamos voltar ao ano 2000.
A santista Andréa Carrer, mestre em pedagogia, tem uma carreira de sucesso. Dá aulas na faculdade de Pedagogia da USP, onde se formou, e é consultora em Educação de muitas redes públicas de ensino e de ONGs, o que lhe obriga a viajar constantemente pelo Brasil.
Nesse ano, uma parente descobre um câncer no útero – e, meses depois, descobre-se grávida. Muitos médicos não enxergaram nenhuma possibilidade de cura e recomendaram o aborto, mas um fez questão de levar a gravidez até o fim – porém sem garantias para mãe e filho.
Diante desse furacão de emoções e decisões, Andréa rezou com aquela intensidade que só nós mulheres conhecemos, e prometeu: “Meu Deus, tira minha parente dessa. Salve a vida dela e do filho, e eu prometo viver e trabalhar para ti”. A parente da Andréa foi tratada em São Paulo com terapias alternativas e teve que submeter-se às pressas a uma cesariana (vamos combinar que não havia alternativas, né?), quando o bebê estava ainda com oito meses.
Durante o procedimento cirúrgico, os médicos simplesmente não detectaram mais a doença que sempre fora tão nítida em todas as ultrassonografias do pré-natal. Sumiu. Puf. E a criança – um menino – nasceu saudável.
Com uma dívida daquelas com O Cara Lá de Cima, Andréa resolveu largar toda a vida e a carreira em São Paulo, e rumou para João Pessoa (PB), cidade que ela já conhecia de seu trabalho de consultorias. Conheceu Lucena, cidade a aproximadamente 60 Km ao norte de João Pessoa e viu a extrema pobreza do local. Resolveu que iria dedicar-se à comunidade. Era 2001.
Andréa tinha muito trabalho pela frente. Ajudou no desenvolvimento da
ONG Apôitchá – uma forma de valorização da cultura local, já que apoitchá é uma expressão muito usada em Lucena, que quer dizer “a pois tá”, para dizer por exemplo “apoitchá certo, amanhã tô lá”.
O trabalho da Andréa não é fácil. Após construir a sede própria em 2006, fruto do prêmio Itaú Unicef conquistado no ano anterior, a Apôitchá com sua equipe passou a atender mais de 300 crianças em sua sede. São portadoras do vírus HIV, ou têm deficiências mentais / físicas, ou então são vítimas de abusos físicos, sexuais, pais alcoólatras. Em última instância, são vítimas da extrema pobreza em que vivem.
Andréa conhece pelo nome cada uma das crianças a que assiste. E fala de cada uma delas com um carinho que muita mãe não sente pelo próprio filho. Falta de carinho de mãe pelo filho, aliás, é um dos trabalhos de Andréa na comunidade. Ela me contou que, em Lucena, a maioria da população que vive em situação de extrema pobreza não comemora aniversário. E ela descobriu isso de forma bem chocante, ao conversar com uma mãe:
- Fulana, hoje é o aniversário do seu filho, você não vai nem dar um beijo nele pelo dia de hoje?
- Hein? Por quê?
- Porque hoje é aniversário dele, quando as pessoas fazem aniversário elas ganham ao menos um beijo daqueles que as amam, Fulana!
E foi então que ela teve o estalo de perguntar:
- Fulana, quando é o SEU aniversário?
- Hein? Sei disso não, senhora! Tem que ver naquele papel lá! (documento de identidade).
A fulana em questão nunca havia comemorado o aniversário. Não sabia em que dia nascera. Por que, então, comemorar o aniversário do filho? Foi assim que a Andréa descobriu que o trabalho que ela teria que fazer por lá era muito mais básico: ela teria que ensinar as mães a amarem a si mesmas e a amarem e acarinharem seus próprios filhos.
A miséria extrema de Lucena tem mais definições.
Outro caso: uma mulher de 24 anos com cinco (ou seis, sete, dez, vinte, enfim) filhos. Cada um de um pai diferente. As crianças mais novas têm, respectivamente, três anos e alguns meses. A de três anos, filha de um pai negro, viva apresentando problemas de relacionamento na sede da Apôitchá; a caçula, filha de pai branco, vivia no colo da mãe, que preferia a mais nova justamente por ser branca (!!!).
- Beltrana, você já reparou como a sua filha mais novinha, que tá sempre no seu colo, é calminha, tranqüila, está sempre passando bem?
- É verdade, né, dona Andréa?
- E você já reparou como a Beltraninha (a de 3 anos) está sempre triste, revoltada, arranjando encrenca com as outras crianças, Beltrana?
- É, aquela menina não tem jeito, não!
- Beltrana, você já reparou que você chama a sua filha menor pelo nome, e a Beltraninha você só chama de Nega Velha? Por que você não tenta chamar a Beltraninha pelo nome, e dar colo, beijo e carinho pra ela?
Como vocês podem perceber, o trabalho é de formiguinha. E não há muitas garantias de que será possível tirar férias do trabalho no inverno, como as formigas fazem.
Mas a Andréa persiste. Cada idéia que tem é exposta com entusiasmo e um brilho nos olhos que só algumas pessoas conseguem exibir. E cada criança salva da morte, desnutrição, miséria, abuso sexual ou físico, enfim, de sua realidade, é um prêmio especial para nossa Mamie.
E a que custo pessoal ela realiza esse trabalho! Ou vocês conseguem ficar seis anos sem comprar roupas porque todo dinheiro que entra em casa após pagar as contas (mínimas) é revertido para a Apôitchá? Perguntei pra ela se ela não sente falta do conforto material que tinha há dez anos, quando vivia em São Paulo. A resposta: E eu preciso disso, Letícia? Minha parente está viva e feliz da vida! Eu preciso de mais o quê?
Casou-se com Abraão, e os dois adotaram uma menina que foi abandonada na Apôitchá. A menina recusa-se a aceitar o fato de que a Andréa é só mãe de coração. Vive repetindo: Não, senhora! Eu saí do seu bucho, viu?
Essa é a Andréa. Ela mata um leão, 20 hipopótamos e 39 elefantes por dia para viver e para garantir a vida dos outros. Uma Mamie Bellíssima!
Que foi vítima desta perua que vos fala. Quando a conheci, lá por 2005, ela comentou comigo que, por estar na casa dos pais, pela primeira vez em muitos anos conseguiu um tempinho para si mesma e, certo dia após o banho, filou o hidratante corporal da irmã. Ela estava há anos sem usar hidratante. Era época de natal.
Eu não pensei duas vezes. Alma tão bonita merece viver num corpo bem cuidado. Montei um presente de natal do qual ela jamais se esqueceu: uma cesta que eu chamo de kit perua. Tudo muito básico para o dia-a-dia de uma mulher: shampoo, condicionador, hidratante para as mãos, hidratante corporal, esmalte clarinho, alicate de cutículas, batom cor de boca. Tudo acondicionado numa cesta de vime forrada com filó branco.
Andréa abriu o presente e ficou encantada. A mulher que vive lá dentro daquela alma maravilhosa revelou-se feliz da vida com aquele chamego. O marido foi mais prático: Ôxe! Esse filó ainda serve de tapa-mosquito!
Minha amiga Andréa voltou para São Paulo agora em novembro para trabalhar e rever a família. Aproveitou para conhecer o Thiago, a quem abençoou, fez shantala, acarinhou, ninou... e me disse uma coisa que eu jamais vou esquecer:
- Graças a Deus, Letícia, mais uma criança amada e desejada neste mundo! Você não sabe a diferença que isso faz!
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