Querida filha,
Percebi que tenho escrito muito sobre mim e sobre você. Do mesmo
modo, costumo falar com você. Mas é a primeira vez que te
escrevo. Pensei em escrever um trechinho por vez, te
contar como vai a vida aqui fora, enquanto você cresce aqui dentro.
E tentar expressar o quão curiosa estou para te conhecer. Pois sim,
acho que você conhece mais de mim do que eu de
você. Você escuta meu coração bater com pouco esforço; já
eu preciso de ajuda de um aparelhinho operado por um médico
obstetra pra ouvir o seu. Eu já te nutro e te aconchego, mas nunca
te vi, e toda hora me pego a pensar como será que você vai ser. Ah,
Nina, estar grávida é um paradoxo: ao mesmo tempo que é uma
experiência única e algo "sui generis", todo mundo é
filho de alguém. Não é?
A sua mãe é uma moça um pouco ansiosa e desorganizada, sabe? A
ansiedade até aprendi a controlar. Mas a desorganização... fico
apreensiva de não conseguir deixar tudo pronto pra te esperar.
Você, a chegada mais ilustre.
Estou toda enrolada com seu quartinho, no momento. Eu não gosto
de rosa, portanto você não vai ter um quarto rosa (será que você
vai gostar de rosa? Me pergunto, me pergunto). Queria decorá-lo com
todos os bichinhos possíveis, da terra, do mar e do ar (e de
bichinhos, será que você vai gostar? Cachorrão Barak, que adora
crianças e ontem mesmo se derreteu todo pra uma menininha lá na
praça Vilaboim, espera que sim). Ainda te falta um bercinho e uma
cômoda-trocador, e minha preocupação não é o quanto eles vão custar
- felizmente não nos sobra dinheiro mas também não nos falta,
situação que, acredito eu, ocorre com vários outros casais que
esperam seu bebezinho - mas sim se conseguirei escolher algo
adequado a você.
Noite dessas, sonhei que estava amamentando. Foi tão legal,
porque era um momento só meu e seu. No sonho, não consegui ver seu
rostinho, mas conversava com você. Seu pai, todo prático, diz que
esses sonhos - os bons e os ruins também - decorrem de hormônios.
Pode ser. Mas aqui estou eu, te esperando, e antecipando
como vai ser. É óbvio que não parei de fazer muita coisa
que eu já fazia, como trabalhar, estudar, ler, cuidar da casa, sair
com os amigos, mas enquanto isso, você está aqui dentro, crescendo.
E por mais que eu precise estar focada em várias outras coisas ao
mesmo tempo, continuo a te esperar. Daqui a pouco você chega. Daqui
a pouco vou, aliás, vamos todos te conhecer. Nós aqui de fora
estamos super na expectativa. Você, coitadinha, não tem a menor
idéia de que, daqui alguns meses, vai sair (ou vão te tirar, ainda
não dá pra saber!) de onde você está.
Neste último domingo acordei tarde. Frequentemente ouço
piadinhas no sentido de aproveitar enquanto ainda posso fazer isso,
porque depois nunca mais vou dormir. Blé, não importa.
Faremos companhia uma à outra. No começo você não
vai me entender muito, e tenho certeza que nem eu vou te entender
tanto assim. Mas sei que, depois, vamos nos compreender. E espero
que sejamos uma da outra por muito, muito tempo. Já estou gerando
você há quase seis meses completos, ou seja, cada vez falta
menos...
Com muito amor da sua mãe,
Juliana