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Incompatibilidade sanguínea e lábio leporino

por Dra. Paula Vilela Gherpelli às 17:03 em 08/12/2009

Pergunta de RONALDA

Dra. sou Rh negativa e meu marido positivo e ele tem lábios leporinos qual a porcentagem de meu bebe nascer com essa deficiência?

Resposta de Dra. Paula Vilela Gherpelli

Vinte cinco anos, experiências mil. O currículo da Paula impressiona, especialmente pela dedicação a profissão. Graduada na USP, hoje ela é residente de ginecologia e obstetrícia no Hospital das Clínicas e admite que o trabalho é seu grande hobby. Pretende se especializar na sexualidade feminina e, por aqui, vai ajudar cada mamie respondendo dúvidas, desvendando tabus e até mesmo com um bom papo de amiga.

Ronalda, o problema da combinação do seu tipo de sangue com o do seu marido não tem relacionamento com o lábio leporino. O que acontece quando a gestante tem tipo de sangue Rh negativo e seu neném tem Rh positivo é a seguinte:

Incompatibilidade sanguínea:

Para que eu possa responder essa pergunta adequadamente terei, antes, que explicar algumas coisas sobre o corpo humano. A primeira explicação é sobre como funciona o sistema imunológico, sistema de defesa do corpo. Quando o corpo reconhece um agente externo como estranho (esse agente pode ser uma bactéria, um vírus, uma toxina, uma molécula, etc...), ele cria um anticorpo, que tem a função de ativar o sistema de defesa contra esse agente externo. Existem basicamente dois tipos de anticorpos: o IgM e o IgG. O IgM é o anticorpo formado logo após o primeiro contato do corpo com esse agente externo, e ele tem como característica ser uma molécula grande. Já o IgG é o chamado anticorpo de memória, que demora mais tempo para ser formado, e tem como característica ser uma molécula menor.

A segunda explicação é sobre que significa ser Rh positivo e Rh negativo. Os tipos de sangue são diferentes entre si, e essa diferença está nos grupos ABO e Rh. Quando o sangue é dito do grupo Rh negativo, significa que ele não tem a molécula Rh nele. Quando o sangue é Rh positivo, ele tem essa molécula. Quando o sangue Rh negativo entra em contato com o positivo, o corpo reconhece o Rh como um agente externo e acaba criando os anticorpos, acima descritos, para combatê-lo e neutralizá-lo.

Quando a mulher, que tem tipo de sangue Rh negativo, engravida de um neném que tem o tipo de sangue Rh positivo, a primeira pergunta que deve ser respondida é: essa mulher já foi sensibilizada, já entrou em contato direto com um sangue Rh positivo? Para se ter essa resposta existe um exame de sangue específico para esse diagnóstico. Como pode ocorrer esse contato? Basicamente através de uma transfusão de sangue, ou por uma gravidez prévia com um neném de sangue Rh positivo, em que não tenham sido tomadas as devidas precauções.

Se essa mulher não foi previamente sensibilizada (nunca entrou em contato com o sangue Rh positivo), ela não irá ter nenhum problema nessa gravidez. Porém, se não forem tomadas as devidas precauções durante a gravidez, e houver contato do sangue da mãe e do neném, essa mulher pode se sensibilizar. Como expliquei anteriormente, esse primeiro contato entre os sangues levará à formação das moléculas IgM, que são grandes e não atravessam a placenta. Portanto, para essa gravidez não haverá nenhum problema. O problema surge numa próxima gravidez, em que o corpo já terá formado as moléculas de IgG, que são pequenas o bastante para atravessas a placenta e chegar até o neném. Nesse caso, caso o neném tenha o sangue Rh positivo, o corpo da mulher reconhecerá esse sangue como um agente externo e começará um processo de “combate” contra ele, podendo causar um quadro de anemia grave que acaba sendo extremamente deletério ao neném.

Mas não se assuste, pois esse problema da incompatibilidade de sangue tem uma solução muito simples (se a mulher não tiver sido sensibilizada): a vacinação. Existe uma vacina que funciona como os anticorpos anti-Rh. Ao tomar essa vacina, caso a mulher entre em contato com o sangue Rh positivo, ela já terá o anticorpo para neutralizá-lo, e assim seu corpo não irá aprender a formar esse anticorpo. Desta forma, caso haja um sangramento durante a gravidez, no início do terceiro trimestre e após o parto, se a mulher receber essa vacina, ela não terá problemas no que diz respeito à essa incompatibilidade sanguínea.

Ufa, como é difícil explicar sobre esse assunto, pois para entendê-lo é preciso que você saiba alguns conceitos a respeito do funcionamento do corpo humano. Se eu não consegui ser clara e restar alguma dúvida, por favor, avise-me, que explicarei com mais detalhes sobre os pontos que estiverem obscuros. Mas, o moral da história é esse: converse com seu obstetra sobre isso e não se preocupe: se fizer um pré-natal adequado, seu neném não será prejudicado por isso.

Lábio leporino:

A respeito do lábio leporino, no Brasil, estima-se que a cada 650 nascimentos, uma criança nasce com fissura labiopalatal. Existem vários fatores que têm sido implicados no seu aparecimento, tais como o uso de álcool ou cigarros, a realização de raios-x na região abdominal, a ingestão de medicamentos, como anticonvulsivantes (tratamento de epilepsia) ou corticóide. Durante o primeiro trimestre de gravidez, deficiências nutricionais (alimentação incorreta, deficitária), infecções, além da hereditariedade são fatores que podem estar associados com essa malformação. A hereditariedade, ou seja, a genética, é responsável apenas por 20 a 30 % dos casos de lábio leporino. Se um dos pais tem uma fenda, mas nenhum dos seus filhos têm essa anomalia, as probabilidades de ter um bebê com esse defeito são de 4 a 6 por cento.

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