O homem perfeito: o que o samba de gafieira nos ensina sobre modelos ideais

21/10/2010 17:31 por Papo de Homem

Nas aulas de dança de salão, eu costumava observar como as pessoas tentam imitar os passos e gingados do samba de gafieira (e também de outros ritmos) focando na aparência deles em outra pessoa. Por exemplo, se eles vissem um dos ombros caindo e outro subindo um pouco, eles tentavam fazer isso com os ombros. O resultado era terrível, claro.

Para quem nunca dançou, explico: cada movimento se dá pela organização inteira do corpo, não pela ação local de um membro ou outro. Um dos ombros cai num passo que se chama balança, por exemplo, não porque o movemos, mas porque esticamos uma perna e dobramos um pouco a outra. O ombro apenas vai junto, naturalmente, sem esforço, sem precisar fazer nada. É algo parecido com o que acontece quando soltamos nosso braço no ar. A gravidade atua, não precisamos forçar para a queda acontecer.

O bom aprendiz de dança de salão fica atento para o tipo de energia e intenção que o anima e principalmente para o corpo como um todo, como se fosse um só gesto, como se o corpo inteiro fosse uma mão fazendo sinais diferentes. Se nos preocupamos em reproduzir cada detalhe que é efeito de um só gesto, deixamos de fazer o gesto, ignoramos a verdadeira causa, o movimento que dispara todas as ações pelo corpo.

gafieira

É exatamente isso que acontece com muitos homens sem tantos referenciais masculinos, em busca de um modelo perfeito, lendo revistas com suas 69 dicas de transformação, observando outros homens se orgulhando e ouvindo mulheres idealizando, reclamando... Se as mulheres falam que o homem ideal tem de ser espontâneo e malicioso, pronto, é isso que eles tentam imitar. 

Ora, a tal da espontaneidade é como o ombro que se move na gafieira. Ela vem junto, é efeito, não tem como simular, reproduzir, criar diretamente.

Ao focar em qualidades e posturas específicas, o homem que deseja melhorar acaba ficando ainda mais confuso, perdido. Na busca por autenticidade, por exemplo, acaba se tornando ainda mais artificial, sem contato com o próprio solo.

Assim como no samba de gafieira, o desenvolvimento de qualidades e habilidades - os passos da dança - acontece por um só gesto, cuja expressão é inseparável de um posicionamento interno, uma intenção. 

Onde estão os olhos, os pés, a mente daquele que faz aquele passo? Para onde ele está conduzindo a dama? O que ele quer, o que ele pensa, o que ele vê? Como está sua respiração e como ele pega a dama? É daí que nasce o passo. É daí que nasce o homem.

Marcado como comportamento, papo de homem, samba, gafieira

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