Do que são feitos os craques

09/12/2011 19:27 por Blog MEN

Uma coisa muito pessoal, que varia de torcedor pra torcedor, é a visão do que é um craque. Pra alguns o que define um craque é apenas o critério técnico, ou seja, se o cara joga muita bola ele é craque e pronto. Nessa base, o Ronaldinho Gaúcho é craque, o Neymar já é craque, até o Dodô é craque, já que ele fazia aqueles golaços de tempos em tempos.

Pra outros, existe um critério de títulos. Não é tanto a questão de jogar muita bola, nem de conseguir acertar aquele passe de pé trocado à 30 metros de distância. A questão é ser vencedor. Cafu então é um craque, porque ganhou várias copas. Mas aí o Belletti também é, já que o cara tem Copa do Mundo, Champions League e o escambau. Sim, cara, o Belletti, eu sei.

Você também pode decidir isso pelo poder do cara de encantar as massas e de mexer com a multidão. Romário, por exemplo, lotava estádios sozinho, comandava torcidas, "carregava corações na ponta da chuteira". E outros caras como Túlio, Renato Gaúcho, até mesmo Viola, também faziam isso. Mexiam com as pessoas, provocavam, tornavam o futebol menos pesado, mais divertido, até mais folclórico.

socrates

Na verdade você pode até mesmo medir um cara pelo que ele fez fora de campo, mais como homem do que como jogador. Ronaldo usou o futebol como trampolim pra se tornar um empresário respeitado na área dos esportes e Raí, depois de aposentado, se envolveu com ações sociais, pra dar dois exemplos de ex-jogadores que estão criando legados que vão além dos limites do campo.

Mas a verdade é que, o que torna um cara craque, mais do que a soma de todos esses aspectos, é a capacidade de ganhar o respeito das outras torcidas. Passar por cima dos limites de rivalidade, de deixar pra trás as linhas imaginárias que nos separam através de cores, hinos e brasões e fazer com que a gente admire um cara mesmo quando ele está marcando gols no nosso time, tenha respeito por ele enquanto nossos zagueiros tão lá deitados no chão e não grite "alguém quebra a perna dele" mesmo quando ele está dando passe de calcanhar na nossa intermediária.

Porque ser craque pra uma torcida é até fácil. Obina já teve seu nome gritado no Flamengo, Tupãzinho tem lugar cativo no coração corinthiano e num momento obscuro de um campeonato carioca de anos atrás a torcida do Fluminense já fez musiquinhas pro Asprilla. Sério, pro Asprilla. Mas conseguir o respeito e a admiração das outras torcidas sem com isso perder a identificação e a adoração de uma torcida que é apenas sua? Bem, isso é coisa apenas pra Pelés, pra Garrinchas, pra Zicos, pra Marcos, pra caras assim. E eles são poucos, muito poucos. E por isso quando um deles parte, como é o caso do Sócrates, nós acabamos sentindo tanta falta.

Porque Sócrates era um craque, era um ídolo, e era um cara diferente. Jogador de futebol e médico, atleta profissional e ativista político, articulador do meio campo e articulista de revistas, ele tem o tipo de história que faz a gente notar que não, não é exagero dos nossos pais e avôs: realmente não se fazem mais jogadores como antigamente. Não apenas pelos passes de calcanhar, pelos golaços, pela genialidade em campo, mas também pela atitude fora dele, pela lucidez, pela politização - coisas raras num meio em que as principais atividades extra-campo são se envolver em problemas com a polícia e e em escândalos com mulheres.

E por isso Sócrates vai fazer falta. Para os corinthianos, para os vascaínos, para os palmeirenses, para os atleticanos, pra todos que gostam do futebol bem jogado e que torcem por jogadores que a gente consiga respeitar dentro e fora de campo. Vamos sentir saudades, Doutor.

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