As boas dependências de um homem independente

28/03/2011 14:16 por Papo de Homem

Sabemos que nossa aparência resulta de várias condições além de barba bem feita, dentes limpos, corpo saudável, roupa bacana e olhos de Casanova. Já escrevemos sobre qualidades interiores que podemos cultivar, manias para se evitar e agora voltamos o foco para aquilo que não depende de nós.

Por mais independente que um homem seja, há sempre uma miríade de processos dos quais derivamos nossa força. Somos como Anteu, filho de Poseidon e Gaia, derrotado por Hércules. Tiramos nossa potência da terra. Suspensos, sem contato com o chão, ficamos fracos, morremos.

anteu_estatua

Ele só perdeu para Hércules porque estava longe do chão.

Mas quais exatamente são esses solos que nos irrigam com vitalidade, beleza, potência e tesão de viver?

Sono: diante de um rosto apático no espelho, qualquer um de nós já chegou a essa conclusão: "Preciso dormir". Não tem milagre, há certas forças que só muitas horas (ou às vezes apenas minutos) de sono podem ativar. É esse o conselho que o velho índio Don Juan dá para o antropólogo Castaneda depois de cada leva de aprendizados: durma.

Tempo: estranho olhar para o tempo como um elemento do qual derivamos nossa vitalidade, mas nossa relação com a temporalidade impacta diretamente a qualidade de nossas experiências. Somos capazes de esperar? Observamos, de fato, a impermanência de tudo e cada coisa? Paciência é uma virtude que nos esforçamos para não treinar? O homem independente é parceiro do tempo. Ele age um pouco e deixa o resto com o tempo.

Sol: com prédios iluminados 24h, nossa mensagem para a esfera amarela parece ser "Não precisamos mais de você". Ainda assim, todos nós sentimos nitidamente os benefícios do Sol, seja aproveitando sua luz (impossível de ser reproduzida) ou seu calor, sem o qual estaríamos todos mortos. Não é preciso se prostrar e fazer disso uma religião, apenas reconhecer que devemos nossa vida a uma coisa que nunca encontramos de perto.

Relações: independência é a outra face da boa dependência. Sem relações, não surge nenhuma identidade. Sem pessoas, locais, processos, ações, não somos ninguém. A energia e o tipo de brilho no olho que surge em nós depende de cada relacionamento que sustentamos em todas as direções. Se estamos cansados e nosso filho bate o carro, despertamos na hora. Se o sexo vai bem, nossa pele entrega o jogo. Se cuidamos de animais, plantas, pessoas ou lugares, as relações positivas nos enriquecem, nos enchem de ar. Nossa autonomia nasce justamente das relações que nos sustentam, dos movimentos dos outros seres ao redor. Do mesmo modo, somos mais felizes na medida em que sustentamos outras vidas com simples ações - e vivemos com sentido na medida em que temos consciência desse impacto.

Desconhecidos e antepassados: você não viu, mas alguém cortou as madeiras do piso do seu escritório, outro instalou e outro chamou isso de escritório antes de contratar pessoas. Um pouco antes outros criaram o procedimento de transformar madeira em piso e a cultura de montar empresas. Se a empresa for de suco de laranja, é preciso dar créditos a quem inventou a laranja... São poucos os seres humanos que não estão ligados a você. Poucos aqueles que não poderiam ouvir seu "Obrigado". Para cada filme que você vê, olhe a quantidade de gente listada nos créditos. Ou você nunca fica no cinema até o último nome aparecer?

FONTE: Filme - Os irmãos Cara de Pau

Toda essa galera trabalhando para você se divertir, gargalhar,
pensar e chorar por 2 horas

A lista poderia continuar com oxigênio (gerado por florestas onde nunca vamos pisar), terra, água, comida e mil outros elementos constituintes de nossa simples presença no mundo. Ao fazermos isso, nos sentimos mais vivos apenas por reconhecer o quanto somos sustentados, cuidados, revitalizados, momento a momento, por coisas e seres que desconhecemos (como o Sol) ou simplesmente ignoramos (como os agricultores responsáveis pela rúcula de ontem).

Pensando bem, melhor do que uma lista ou um post é esse poema do Borges:

"Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sur jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acaricia um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão salvando o mundo."
- Jorge Luis Borges

Marcado como comportamento, papo de homem

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